terça-feira, 8 de junho de 2010

QUESTÃO DE CLASSE

DE ATENEIA FEIJÓ,

No meu tempo de criança, quando morava no charmoso bairro Santa Tereza, no Rio, as classes sociais eram praticamente seis: de miseráveis, muito pobres, pobres, classe média, ricos e milionários. Eu pertencia à classe pobre. Ou como se dizia, de uma família simples: não passava fome, morava com dignidade, mas meus pais só tinham instrução primária.
Os muito pobres comiam pouco e moravam mal. E a classe média? Naquela época era formada por gente "classuda": casa bonita, mesa farta e sortida; que se vestia bem, tinha cultura e diploma. Já os ricos tinham tudo isso e muito dinheiro. Os milionários ninguém os via; em geral viviam viajando e em festas. Os que mais se expunham eram os miseráveis, mendigando com os filhos sem escola.
Ia me esquecendo, havia também a classe dos novos-ricos ou "endinheirados sem pedigree". Mas estou a falar apenas com base em registros de memória. Sobre um passado totalmente analógico, no qual ainda nem existia a parafernália de aparelhos eletrodomésticos e variedade nos modelos de automóveis. Na verdade, o conceito de classes era outro. Porém, havia uma coisa que me lembro bem. Não se associava criminalidade à pobreza.
Com a mobilidade social, a classe média se subdividiu em baixa, média-média e alta. Teve quem subiu e quem desceu. Agora, surgiram as letras: A, B, C, D, E... Um movimento requebrado, tipicamente brasileiro. Aqui não existem castas como as indianas; tampouco organizações de nobreza e fidalguias ao gosto europeu. Daí porque considero nossa organização social uma saborosa salada divinamente temperada com a miscigenação.
Domingo, 6 de junho, O Globo publicou mais uma reportagem da série O x da questão: "Até Beira-Mar já foi apenas Fernandinho. Dos 23 alunos que estudaram juntos há mais de 30 anos numa escola pública em Caxias, apenas o traficante optou pela vida no crime." Ótima a reportagem assinada por Antônio Werneck.
Ao mostrar os desafios da educação em áreas de risco, o jornal denuncia também o preconceito atual da sociedade abastada contra as comunidades carentes. Afinal, por que os colegas de escola pública, de 30 anos atrás, do bandido mais famoso do país optariam pela vida no crime? E se Fernandinho, que era bom aluno, tivesse estudado num colégio privado de uma outra classe social? Alguém perguntaria por seus coleguinhas de infância? Dificilmente.
É didático saber que os coleguinhas de infância do traficante mais famoso do Rio superaram adversidades. Provavelmente, passaram a personificar a mobilidade social no país. Entre as crianças que, de 1975 a 1978, estudavam na mesma classe escolar do bandido, em 2010 tem a que trabalha como cabeleireira, mecânico de manutenção de aviões, policial militar, motorista, professora universitária, suboficial da Aeronáutica, marceneiro, vendedor...
Hoje a maioria dessas crianças deve estar na emergente classe C. Uma nova classe média brasileira, que nada tem a ver com a "velha classuda". Por enquanto, a "jovem emergente" parece não se importar com qualidade nem tradição, no que diz respeito a consumo. Interessa-se simplesmente por tudo ao alcance de seus cartões de crédito.
É flagrante a alegria dessa classe C vendo-se incluída nas ofertas comerciais; passando a fazer parte de estatísticas como consumidora. Algo errado? Pagar pra ver... Essa nova faixa social só não pode abrir mão de uma exigência fundamental: acesso à educação qualificada.

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